UM ESTUDO SOBRE O NATAL (III)

O Tempo do Natal: achegas calendariais e cultuais.

Francisco José Silva Gomes

Professor Doutor do Departamento de História IFCS / UFRJ

 

Este ensaio pretende tão-somente apresentar algumas considerações ou achegas sobre o aparecimento das festividades natalinas na história do culto cristão, atendo-me especificamente ao período que vai do século IV ao século VII.

A Igreja do século I conhecia uma só festa: a celebração hebdomadária e anual da Páscoa da Ressurreição. Nascia assim o núcleo a partir do qual se desenvolveu historicamente o culto cristão (liturgia).

Nos séculos IV a VII, a fé dos cristãos no "mistério pascal" foi-se explicitando em celebrações independentes para cada aspecto particular do "mistério" separadamente. Os cristãos vinham criando um calendário próprio que os distinguia dos judeus e dos pagãos. Aliaram porém princípios calendariais judaicos e pagãos, unindo um calendário lunar a um calendário solar. No entanto, algumas festas estavam tão inseridas no quotidiano de cristãos e pagãos que a Igreja preferia reinterpretá-las em contexto cristão, sobretudo quando o Cristianismo, a partir do século IV, se tornou religião da Cristandade.

Constantino declarou ferial "o venerável dia do Sol" por lei de 371. Este era o dia que os cristãos chamavam de dies dominica (domingo). As festas natalinas nasceram igualmente no século IV, não só como a celebração da vinda do Senhor entre os homens (adventus), da Sua manifestação na carne (epiphania) mas também como uma necessidade de afastar os cristãos das festas pagãs do solstício inverno, comemorado em Roma a 25 de dezembro e no Egito e Oriente a 6 de janeiro.

A primeira menção à festa do Natale Christi, em Roma, aparece no Cronógrafo de Filocalo de 354, mas a festa talvez remontasse aos anos 330 e fosse contemporânea da construção da basílica constantiniana de São Pedro na colina vaticana. Nessa colina eram cultuados deuses solares do Oriente. A 25 de dezembro, o Cronógrafo menciona igualmente a festa solar do Natalis Invicti. A festa comemorava o renascimento do Sol a partir do solstício de inverno e foi fixada nessa data, em 274, pelo imperador Aureliano para todo o Império em honra do deus-sol sírio de Emesa.

A contraposição do Natale Christi ao Natalis (Solis) Invicti a 25 de dezembro, na colina vaticana, apoiava-se nas alusões explícitas da tradição patrística ao simbolismo do Cristo como sol da justiça (Ml 3, 21) e luz do mundo (Jo 8,12). As grandes discussões cristológicas dos séculos IV e V encontraram na celebração do Natal oportunidade para afirmar a fé na Encarnação do Verbo.

A festa da Epiphania no Oriente cristão correspondia à mesma intenção do Natal em Roma. Cristãos gnósticos do Egito, discípulos de Basílides, já no século II comemoravam, provavelmente a 6 de janeiro, o batismo de Jesus no Jordão. É que para eles a Encarnação teria ocorrido no momento do batismo: eram adocianistas. A Grande Igreja, no Oriente, começou a celebrar a Epifania, no século IV, simultaneamente como festa natalina e do batismo de Jesus. No Ocidente, a primeira atestação da Epifania é na Gália, em 361, segundo testemunho de Amiano Marcelino.

O Natal romano celebrava o nascimento de Jesus em Belém e a adoração dos pastores. A esta homenagem ao Verbo Encarnado, a Igreja romana acrescentou outra à maternidade de Maria na oitava do Natal. Centrando todo o ciclo natalino na data de 25 de dezembro, a Igreja romana tentava, além disso, cristianizar a popularíssima festa pagã das Calendas de janeiro. Eram três dias de regozijo, de dar presentes, de trocar votos de boa sorte, de devoções para se assegurar um ano auspicioso. Desde 46 a. C., a reforma juliana do calendário solar romano transferiu o ano civil de 1o de março para 1o de janeiro, dia em que os cônsules tomavam posse também. No solstício de inverno festejavam-se igualmente as Saturnais quando, na cidade, reinava alegria, orgia, uma distensão "carnavalesca".

As solenidades do Natal e Epifania, ainda no século IV, foram recebidas uma e outra na maioria das Igrejas, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Adotando o Natal, o Oriente conservou-o como festa do nascimento de Jesus, celebrando a 6 de janeiro o batismo de Jesus. São Epifânio de Salamina evocava também nesse dia a adoração dos magos e o milagre das bodas de Caná. Na segunda metade do século IV, em Roma, a festa de 6 de janeiro centrava-se na adoração dos magos como manifestação do Cristo aos pagãos. A liturgia romana criou, com o tempo, uma festa própria para celebrar o batismo de Jesus no domingo seguinte à Epifania.

Em Roma, o Natal apresentava uma característica única: a missa era celebrada na liturgia papal três vezes. Inicialmente, o Natal comportava apenas a missa in die, celebrada na basílica vaticana. No século VI, havia um oratório com uma réplica do presépio de Belém junto à basílica de Santa Maria Maior. O papa passou a celebrar nesse oratório uma missa in nocte, semelhante àquela que se realizava em Belém. Pelos meados do século VII, juntou-se uma terceira missa, esta celebrada na igreja de Santa Anastácia, nas proximidades do Palatino. Esta igreja, dedicada a uma mártir oriental, tornara-se a igreja oficial dos bizantinos depois da reconquista do século VI. Como a memória da mártir era festejada a 25 de dezembro, o papa celebrava pessoalmente a missa in aurora, mas como uma missa natalina, talvez como um gesto de deferência para com as autoridades bizantinas residentes na cidade.

No final do século IV, começou-se, no Ocidente, a fazer preceder as festividades natalinas de um período de preparação de quatro semanas (rito romano) ou seis semanas (rito ambrosiano) chamado Adventus. Desde o século V, temos notícias do advento na Gália e na Hispânia como uma preparação ascética e penitencial para as festas natalinas. Já o Advento romano apareceu somente na segunda metade do século VI como uma preparação litúrgica propriamente dita. O advento era celebrado como um tempo da manifestação do Cristo entre os homens: sua vinda na carne, inaugurando os tempos messiânicos, e sua vinda na glória (Parusia) que deverá coroar a obra redentora no fim dos tempos.

As quatro semanas do Advento na liturgia romana comportavam duas etapas: a primeira, do primeiro domingo do Advento a 16 de dezembro; a segunda, de 17 a 24 de dezembro. Durante esta etapa festejava-se com maior intensidade a manifestação do Senhor na carne. A Liturgia das Horas apresenta as belas antífonas para o Magnificat, as "Antífonas do Ó" das Vésperas. Cada uma das antífonas liga o vocativo latino (O) de louvar ao Messias esperado a uma súplica em que se pede a sua vinda salvífica: O Sapientia, O Adonai, O radix Jesse, O clavis David, O Oriens, O Rex gentium, O Emmanuel.

As liturgias do Ocidente celebravam todas, ao longo do Advento, a Anunciação do Senhor. Na Hispânia, por exemplo, a Anunciação era celebrada a 18 de dezembro juntamente com a Expectação de Santa Maria, conhecida entre nós como Nossa Senhora do Ó. A liturgia ambrosiana a celebrava no último domingo do Advento. Na liturgia romana, a Anunciação a 25 de março superou, a partir do séc. VII, aquela celebração no tempo do Advento.

Em Jerusalém, por volta de 386, Etéria menciona uma Quadragesima de Epiphania, quarenta dias depois do nascimento de Jesus, que se encerrava com a festa da Apresentação do Senhor no Templo (2 de fevereiro). Uma procissão de velas foi acrescentada por volta de 450. No século VI, a festa foi recebida em Constantinopla sob o nome de o Encontro (Hypapante), isto é, o encontro do Senhor com Simeão e Ana no Templo. Roma a recebeu no século VII. Na Gália, esta festa recebeu nova designação, em meados do século VIII, a de Purificação de Santa Maria, conhecida entre nós como Nossa senhora da Luz ou das Candéias (Candelária).

Espero que estas achegas calendariais e cultuais tenham trazido alguns esclarecimentos históricos para a tradição cristã do tempo do Natal, que vai do Advento à Apresentação do Senhor, tempo importante no quotidiano dos homens deste final do segundo milênio da era cristã, e tradição que hoje não atinge somente os cristãos mas que se mundializou.

 

ADAM, Adolf. O Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1982, pp. 121-155

AUGÉ, Matias et alii. O Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1991, pp. 179-213

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MARKUS, Robert. O fim do Cristianismo antigo. São Paulo: Paulus, 1997, pp. 93-139

MARTIMORT, Aimé (org). A Igreja em oração. Petrópolis: Vozes, 1992 vol. IV, pp. 81-97

SARTORE, Domenico e TRIACCA, Achille (org.). Dicionário de Liturgia. São Paulo: Paulus, 1992.

main.htm

 

Esta é uma iniciativa de alunos do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e este é um espaço público onde todas as colaborações políticas, acadêmicas e artísticas são bem vindas.

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