FUTEBOL, A COPA E OS ENSAIOS DE PATRIOTISMO (II)

(**)  Capitanias Hereditárias

Por Aramizu.
http://pt.shvoong.com/humanities/1676703-capitanias-heredit%C3%A1rias/ 

A colonização do Brasil, iniciada em 1530 com a expedição de
Martim Afonso de Souza, não foi uma tarefa fácil. Em 1532, Martim Afonso fundou
São Vicente, a primeira vila brasileira. No entanto, um único núcleo de
povoamento na imensidade da costa não resolvia os problemas causados por navios
franceses que vinham buscar pau-brasil.

Era necessário povoar rapidamente a região costeira, mas a Coroa portuguesa não
dispunha na época de recursos humanos nem econômicos para colonizar, em curto
prazo, o litoral brasileiro. Por isso, a partir de 1534, o governo português
resolveu iniciar no Brasil um processo de colonização que já havia sido
aplicado, com muito sucesso, na ilha da Madeira e nos Açores: a divisão da
terra em capitanias. Dessa forma, a Coroa portuguesa pretendia ocupar o
território brasileiro e torná-lo uma fonte de lucros.

As capitanias eram imensos lotes de terra que se estendiam, na direção dos
paralelos, do litoral até o limite estabelecido pelo Tratado de Tordesilhas.
Esses lotes foram doados em caráter vitalício e hereditário a elementos
pertencentes à pequena nobreza lusitana. Os donatários tinham de explorar com
seus próprios recursos as capitanias recebidas.

Ao doar as capitanias, a Coroa portuguesa abria mão de certos direitos e
vantagens, em favor dos donatários, esperando com isso despertar seu interesse
pelas terras recebidas. A Carta de Doação e o Foral garantiam os direitos do
capitão donatário.

Pertenciam-lhe todas as salinas, moendas de água e quaisquer outros engenhos da
capitania.
Podia escravizar índios em número indeterminado, mas devia enviar 39 para
Lisboa, anualmente.
Ficava com a vigésima parte da renda do pau-brasil.
Podia criar vilas, administrar a justiça e doar sesmarias, menos para a esposa,
para o filho mais velho e para judeus e estrangeiros. Sesmaria era uma extensão
de terra que o donatário doava a quem se dispusesse a cultivá-la. Ao contrário
da capitania, da qual o donatário não tinha a propriedade (mas apenas o uso), a
sesmaria era propriedade do sesmeiro, após dois anos de real utilização
O rei reservava para si algumas vantagens que, na verdade, lhe garantiam os
melhores proveitos que a terra poderia oferecer;
dez por cento de todos os produtos da terra;
vinte por cento (um quinto) das pedras e metais preciosas;
monopólio do pau-brasil, das drogas e das especiarias.
No Brasil, o sistema de divisão da terra em capitanias não deu bons resultados.
A grande extensão dos lotes talvez a principal razão do insucesso. Sem recursos
suficientes, os donatários só conseguiam fundar estabelecimentos precários na
região costeria dos lotes que recebiam; não tinham condições de tentar a
colonização do interior.

A enorme distância que separava as capitanias da metrópole, de onde vinham os
recursos necessários para a sobrevivência dos núcleos iniciais, dificultava
ainda mais a colonização.

As capitanias de São Vicente e de Pernambuco, apresentaram resultados melhores
do que as outras. O sucesso dessas capitanias se deveu ao êxito da cultura
canavieira e da criação de gado.

Com o passar do tempo, as capitanias foram revertendo ao governo português. No
século XVIII, quando Portugal era governado pelo Marquês de Pombal, o sistema
foi totalmente extinto. Os limites das capitanias sofreram modificações, mas
determinaram os contornos gerais das províncias do Império que se limitavam com
o Atlântico; estas, por sua vez, deram origem aos Estados litorâneos do Brasil
atual. Os estados do interior tiveram origem diferente.          

(***)Brasil 0 X 1 Argentina
por Eduardo Szklarz*
É a cena brasileira por excelência. No bar, na casa de amigos, tanto faz. Basta
eu dizer que estou morando na Argentina para que todos lancem um olhar
surpreso, misto de escárnio e piedade. "Argentina? Mas que diabos você
está fazendo lá com aqueles insuportáveis?" Já escutei de tudo. Que os
argentinos são os europeus que não deram certo, que são um bando de arrogantes,
que nos chamam de "macaquitos" e por aí vai. A maioria diz isso sem
nunca ter conhecido um legítimo exemplar dessa espécie controvertida. Não
importa. Ser brasileiro requer o cumprimento de apenas três dogmas: gostar de
feijão, acreditar piamente que Pelé é melhor do que Maradona e ter birra de
argentino.
Intrigado com a polêmica, partir para uma pesquisa de campo. Queria investigar
o que existe debaixo daqueles (montes de) cabelos. Nesses dois anos em solo
ini-migo falei com gente de todo tipo: taxistas, médicos, padeiros, artistas,
estudantes, garçons.. e confirmei minha hipótese. Parece difícil de acreditar,
mas enquanto esculhambamos os argentinos, eles têm enorme carinho por nós. Não
é mera impressão minha. A simpatia pelo Brasil está nas televisões, escolas,
centros culturais. Quando sai comigo à noite, um amigo que morou no Brasil só
fala em português e se finge de brasileiro para ser bem tratado – inclusive
pelas mulheres. As ruas estão cheias de bandeiras brasileiras e a moda aqui é
usar sandália havaiana. Seja sincero: você sairia por aí usando chinelo com
bandeira da Argentina?
Seria cômodo dizer que essas diferenças refletem as contradições entre o
tropicalismo e o europeísmo. Ou que é tudo fruto de nossos desencontros
lingüísticos e históricos. Mas me permitam ir direto ao ponto: os brasileiros
pararam no tempo. Insuflado por locutores e comentaristas esportivos, o
antiargentinismo extrapolou o mundo do futebol e talvez seja hoje o único caso
de unileralismo brasileiro. É produto de um Brasil tacanho, preconceituoso. No
fundo, dizer "odeio argentinos" não é menos discriminatório que dizer
"odeio negros" ou "odeio homossexuais". Quem persegue
boleiros argentinos simplesmente por serem argentinos não pode reclamar quando
espanhóis xingam Roberto Carlos não por suas qualidades como jogador, mas pela
origem mulata.
Sempre seremos rivais no futebol, mas não precisamos limitar nossa relação à
velha briga boleira. Os argentinos, mais inteligentes, já se deram conta disso.
Eles cantam as músicas dos Paralamas do Sucesso, jogam capoeira, viajam pelo
Brasil e estão aprendendo português. As rádios dedicam programas à nossa
música. Charly García, o cantor mais popular do país, conclama os argentinos a
levantar o astral e se espelhar em nós, lembrando que Ia alegría no es sálo
brasilera na música "Yo no quiero volverme tan loco". Os brasileiros
mal sabem citar uma banda argentina. Mas adoram ficar exaltando a esperteza do
samba ante a melancolia do tango – mesmo sem nunca ter ouvido falar nas
chatinhas, mas festeiras, cumbia e chacarera. Como todo país de dimensões
continentais, é natural que o Brasil seja autocentrado. Mas mesmo os Estados
Unidos são mais permeáveis à cultura mexicana do que nós em relação à dos
nossos vizinhos. O brasileiro comporta-se igual a um caipira americano,
daqueles que acham que a capital do Brasil é, ironicamente, Buenos Aires.
O erro está em concebermos sociedades estáticas. Durante um tempo, a Argentina
parecia de fato um pedaço da Europa por estas bandas pobres. No início do
século 20, entraram quase 300 imigrantes europeus para cada mil habitantes, o
triplo da média americana. Os salários no país superavam os da Inglaterra.
Talvez venha daí a arrogância que gerou antipatia no resto do continente. Mas se
existe algo positivo nas crises econômicas que os argentinos têm vivido é a
maior consciência de serem latino-americanos – até porque os imigrantes de hoje
vêm da Bolívia, Peru e Paraguai.
A rivalidade Brasil x Argentina pode até existir entre alguns líderes políticos
e militares, mas não entre os povos. Porque rivalidade, segundo o dicionário,
significa competição, oposição.

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